Boa Sorte, Dieji!

Foto de  Juanita Mulder

Dieji corria, ia tão apressada quanto o seu respirar.

Numa ida perenal, no que parecia um túnel negrejado com uma única janela no além, levava as dores do seu corpo manchado, mas dessa vez aguerrida. Ela era mulher de porte africano, contudo, não eram as polposas nádegas que a cansavam. Dos cabelos que pareciam pedúnculos de imbondeiro escorriam as mesmas águas que se faziam lágrimas e deixavam nas elevações do seu rosto genuíno linhas de choros antigos.

Lá ia Dieji. Enquanto corria, via-se impossibilitada de fazer distinções, tudo estava à beira de desvanecer ou já o tinha feito.

No começo não entendia exactamente por que razão corria, só que incansavelmente o fazia. Ainda com os pés activos, virou-se para confirmar se atrás de si realmente havia um gigante como lhe faziam pensar os estrondos de botas-militar. Seu coração tremia ao som de cada vestígio de pé deixado no solo. Parar de correr não lhe pareceu aconselhável nem mesmo quando além de um passado escuro nada mais viu. Os rumores que estremeciam a terra eram os mesmos que os das suas noites cálidas. As pegadas que se desfaziam no enevoar pareciam as cicatrizadas nas suas costas. O barulho do silêncio que a incomodava, plagiava o da voz do ébrio ser que, num dia, com ela, perdeu-se em sonhos e juras. O mesmo dos seus dias primeiros, o único da sua vida, o que tratou como “verdade exclusiva”. Tal som era incomparável, desgraçadamente, conhecia-o bem. Então, ao ouvi-lo, correr fez-se natural.

              Dieji corria, ia tão apressada quanto o dançar dos ventos.

              No branco de um chegar que não podia adiantar, num distante alvo, viu o que nos olhos de qualquer desesperado parecia possibilidade e mais rápido ainda se pôs a correr. Nos maboques que nela passavam por seios, duros e pontiagudos, iam as águas dos quilómetros percorridos, mas dessa vez mais açodados. O pouco de banha que ondulava o forno dos seus filhos oscilava ao ritmo dos seus pés calejados e sobre a pele avelhentada vestia cansaço.

             Dieji ia! Sentia o desmedido bater do seu coração e entendia que naquela circunstância não era afeição.

O sorriso que entreabria as feridas no seu rosto não era o tido por bobo, próprio de pessoa tomada de forte paixão. A expressão de simpatia que a adornava, traduzia alívio e tal sentimento era por si própria. Dieji sorria por finalmente perceber. As borboletas que dançavam por seu estômago exprimiam um desejo impetuoso de se reinventar. Via o excesso de agonia como o que lhe provocaria a tão imprescindível mudança.

               Finalmente a janela se fazia mais perto.

         No musseque em que nasceu mulher alguma tinha reivindicado, aliás, os seus sete tios foram concebidos em noites pungentes. No ventre da sua avó quase já não havia espaço para os ternos arranhões dos netos. Então, estava claro que a esperança já havia morrido há muito. Dieji estava só! Os sons agressivos aumentavam na medida em que se via chegar, mas em contrapartida, o seu desejo de se metamorfosear também o fazia.

Ao entender a significância da janela no além, a luta deixou de ser pelo afrouxar das suas pernas, pelo descansar dos seus olhos, e passou a ser pela transformação da sua própria mente, pelo discernimento do seu querer, pelo seu renascimento e pela independência das outras. Dieji deixou que o suor que lhe banhava significasse a tomada de atitude há muito carecida. Seu chegar seria essa acção.

  “Mulher não se porta assim, filha” — dizia de forma agressiva e aos pedaços. A voz da mãe quase já não se escutava pelos ruídos dos berros da avó: — “vocês é que não aprendem, mesmo a vos ensinar, até hoje não sabem tratar bem os vossos maridos, — berrava a velha. — “Pensam que são melhores do que nós que toleramos há muito.” — A raiva nas carquilhas da avó de Dieji era pela viagem forçada a que lhe submeteu a neta. Pelo reviver dos seus próprios gritos. Estava claro que mesmo que os lábios dela estivessem vedados, para a sua infelicidade, os seus sentidos ainda estavam intactos e rememorar era inevitável.

            Enquanto isso, os pés de Dieji não cessavam, ela continuava a correr. Agora corria contra as correntes das normas da sanzala. Corria contra as correntes das vozes das Senhoras Grandes. Corria contra as correntes da escolha dos seus tios. Finalmente corria por si. Corria o mais rápido possível livrando-se de desnecessários decessos. Ia sem medo; minto, talvez algum, afinal o barulho atrás de si não cessava, mas já não era o suficiente para a fazer desistir.

           Dieji temia! E, com as linhas dos seus choros antigos, expressava os seus receios, contudo, esses já não eram só por si. Dieji agora temia pelo futuro do seu rebento feminino, que, pelo passado das outras, estava automaticamente ameaçado. No entanto, ela via nos soluços que a empurravam oportunidades para desfazer o ciclo. Nos calores que alagavam os seus olhos, via inúmeras razões para acordar. Mas, longa era a viagem e a batalha estava longe de ser vencida. Até àquele momento, custava-lhe confiar que faria grandes coisas, mas começou a crer na possibilidade de realizar pelo menos uma. E, dependendo de si, essa seria a sua ida.

              O chegar fazia-se alvo, porém, não sem o escurecer do seu nó gargantal.

            Numa ida agora vista perecível, no que parecia um túnel em degradação com uma única janela no além, levava a sua exsudação a uma realidade que lhe parecia virente. Pelo furibundo tossir que Dieji deixou sair ao duro e desesperado dançar das pernas no chão frio, a mão do poltrão que a tinha, amoleceu e escorregou do seu pescoço. Por bem ou por mal, a força dele terminou onde a dela começou.

             Em pé, Dieji distraiu-se com o reflexo do resto de beleza que portava. O espelho outrora quebrado apresentava-lhe exactamente como estava, feia, fraca e ferida. E, pela primeira vez em anos, encarou o vidro polido e não chorou.

As mãos do bárbaro estavam ainda tatuadas nas vias do seu pescoço adiposo. Ela sentia o peso da sua passada verdade exclusiva nas dobras do seu ventre e isso via nas marcas deixadas pelos seus joelhos. Mas, sorria. Cada berro era visto nas feridas que trazia. A alegria deixou de ser por mais uma vez esconder essas histórias e passou a ser pelo contrário. Ao notar que no organizador de maquiagem já não havia base nem pó suficiente para cobrir as manchas daquela noite, Dieji pousou a mão direita sobre a mesa e viajou pela significância das manchas que adornavam a sua face.

            Pelo espelho, no canto dos seus olhos, viu no rosto lacrimoso da filha, razão para um último adeus. Com isso, confiava que o pequeno Minguito, o seu rebento varonil, aprenderia que violência não era o seu género e Mionga, o rebento por quem mais temia, diferente dela, jamais precisaria se conformar com gigante algum. Para o belo resultado de uma das suas noites pungentes, independentemente das botas-militar, a opção de ir estaria sempre à sua disposição.

             Naquele instante, ainda sem palavras, Dieji, com um abraço mutilado, garantia um futuro silencioso à sua filha; prometia que não seria um ameaçado. Enquanto isso, Minguito aprendia que nem sempre vence quem mais berra.

              Quase aos fins dos seus quarenta, Dieji atreveu-se a crer em felicidade: ainda que só, uma sem dores. — “És tonta se achas que te vão aceitar com esses filhos.” — Ironicamente, a primeira vez que ele se dirigiu a ela de mãos vazias, foi a última também. — “Boa sorte, Dieji!” — Expressou-se em tom sarcástico.

             Dieji abriu os olhos e, por fim, o branco que via no além eram as suas malas feitas.

*Publicado no livro “Ahetu: Vozes Desprendidas”.