O amotinar da Tulipa

Foto de  Juanita Mulder

Foi-lhe narrado desde o seu período pueril que era errado ser a primeira a olhar. E ainda que lhe defrontassem olhos interessados, não era de boa moça fixar os seus também. Foi instruída a aproximar as pálpebras abaixo das sobrancelhas perto destas acima dos cílios. Tulipa sabia que, como uma rosa, tal precisava ser feito de forma morosa, sempre com um simples e resumido sorriso. Aprendeu desde cedo a nunca deixar reflectido em suas pupilas semblante de moço que fosse. Fazer sair os alvos dentes e pousá-los apertados nos lábios inferiores era lascívia, coisa de que se devia afastar a todo custo. Assim foi feito por sua avó e por sua mãe também, logo, esperava-se que Tulipa se calasse ao ouvir uma voz mais grave que a dela. Faria o certo e levaria a mão direita sobre a esquerda e com os braços em ângulos de cento-e-trinta-e-cinco graus na vertical cobriria o que na verdade nunca poderia estar delineado. Não era de mulher digna de respeito dar a conhecer as suas curvas a homem que não lhe tivesse posto anel. Assim sendo, Tulipa tinha no guarda-roupa as peças mais longas e largas alguma vez alinhavadas e quase todas sem cor. Tudo isso para não atrapalhar os “sérios”.

         Tulipa tinha bexiga hiperativa e isso a levava a várias viagens involuntárias durante o dia. Mas mesmo com os impulsos naturais ela portava-se tal como era esperado dela. Na maior parte das vezes se mantinha sentada até que alguma coisa roubasse a atenção dos fúfios espectadores. Aproveitava o entreabrir dos olhos dos rostos pesados para se levantar sem “propositadamente” desviar o mirar varonil.

Ela estava ciente de que lhe eram naturais as carnudas cordilheiras, mas foi-lhe incutida a importância da preservação do respeito. E, tal não era alcançado caso seus atributos fossem admirados antes dos seus miolos, isto segundo as primeiras que, consequentemente, ouviram dos Primeiros.

          Tulipa não era nem diferente nem melhor do que ninguém; assim sendo, também precisava conhecer o exacto lugar dos talheres, a posição correcta das taças, e o tamanho da iguaria que lhe era permitido mordiscar.

           Além da ausência de enfeites nos pulsos e nas mãos; essas últimas, não se poderiam engordurar. Usar os dedos para desfrutar de grelhados, decerto, não era coisa de menina que ansiava ser mulher. E como em épocas passadas, nessa, Tulipa também precisava ambicionar tal mais do que qualquer outra coisa; então, comia com lábios juntos e gengivas escondidas.

           Era do seu conhecimento que a dada altura, depois dos vinte e antes dos trinta, lhe seria cobrado pelo menos um rebento. Tulipa sabia.

           Não como acto de rebelião, mas Tulipa levantou-se com raiva e um forte desejo de se desfazer das correntes que sentia envolto na fina cintura que portava. Sentia que se não o fizesse de imediato acabaria como a sua mãe; com dois filhos esboçados e mais cinco condenados.

           Quando com a bunda a oscilar em peça de roupa justa entrou na sala de reuniões com olhos fixos aos outros, ninguém quis acreditar. O desconforto que cobria a dureza facial dos mais velhos era vergonha por terem as suas ardências evidenciadas. Não era segredo que, de quando em vez, esses engravatados se lambuzavam impudentemente com leves matérias pegajosas que não saiam das suas senhoras. A sua tirania punha as ditas “catorzinhas” entre os seus próprios sonhos e os desejos passageiros desses barrigudos.

Embora lhes custasse crer, aquela era ela. Era mesmo ela trazida por seu corpo marcado em vestido importado, com curvas delineadas e saliências perceptíveis, era ela. Tulipa encarou os altos e robustos com convicção que não estava apenas nos olhos, o corpo dela estava também obstinado. O desconforto era de quem escolhia olhar ao sul ao invés de norte. Ela sabia exactamente o que a levou àquele lugar e não pretendia perder tempo facilitando o que fosse para portadores de “carne fraca”.

           Tulipa exibiu a figura que beirava os trinta e sem breves planos de modificá-la fez cair os queixos dos que pela primeira vez constatavam uma mulher que para tal não precisou ser senhora. Com postura firme, olhar centrado e braços em movimentos de lecionar perfumou a sala com o único cheiro que plagiava o seu nome. Tulipa contestou o correcto sem dizer uma só palavra a respeito.

           Com um batom vermelho-cereja Tulipa avolumou os grossos lábios que definiam seu rosto oval. Nos olhos, as pestanas foram esticadas com um rímel que as deixou mais pretas e atraentes. À frente deles, em linha vertical, o corpo formoso da mesma jovem que se deixou ser avaliada pelas poucas gorduras que trazia no seu manequim, dessa vez resguardado em traje de não mais de duas peças arejadoras. Na altura, Tulipa não se igualou ao protótipo, e ela sabia, contudo nada lhe impediu de desfilar.

           Com curvas e com o cabelo que crescia espesso e em altas pontas se desafiou a perder o litígio fabricando uma verdade que lhe faria se sentir vencedora. Marchou em fila, sorriu, discursou, e resolveu continuar com a sua vida. Fez daquela mais uma fase do seu motim, um desafio, uma plataforma útil para reeducar, para mostrar que beleza e clareza também vinham aos pares. Tulipa estava decidida a revelar que ela não era a “quase” nudez na passarela embora a mesma fosse parte da sua história.

           Não houve quem acreditasse, mas era mesmo ela. Tulipa. A menina instruída a descolorir-se para que seu clarão não fosse tido como razão do desnortear do ser oposto. Tulipa amotinou. Expôs os seus peritos miolos aos olhos censorinos ao mesmo tempo que tornou evidente a sua esguia figura.

*Publicado no livro “Ahetu: Vozes Desprendidas