Acordo de paz expirado

          “O inimigo foi fuzilado”, conclamaram ditosamente com os corpos desfeitos das espingardas.

          Em dois-mil-e-dois a estação das chuvas foi longa. As gotas d’água trucidaram pais, tios, avós; foram todos levados pelas correntes vermelhas dos seus medos mas, por fim, o d-e-u-s que acusavam pelo dilúvio foi morto, vinte-e-dois-de-fevereiro foi o seu último dia: Farda desfraldada, roupa interior exposta, pés sem botas, buraco de bala na garganta, feridas na cabeça e moscas em festa por seu rosto. Em mentiras de como e quando, foi; foi mesmo. De d-e-u-s só restou-lhe a crença dos que até então eram seus. O número da perfeição, foi-lhe perfeitamente marcado.

          Esperou-se até o eclodir das flores de Abril para então assinar-se o contrato; finalmente Paz nasceu. O miúdo chegou franzino. Uns sentiram até que veio prematuro, mas já estava ali, no seio deles, assinado, não havia mais alternativa. Mesmo com as pupilas às voltas, desconfiança e fobia; mesmo com os pêlos acuminados, restava-lhes apenas sacudir as mãos e viver o momento,  assentar nos braços o menino que lhes era outorgado: Olhos entreabertos, lábios esfaimados, rosto adiposo; plausível, dado o momento. Era paz!

          Paz, de maneira paulatina, desfez-se das fraldas, saiu dos braços dos que o tinham, e deu-se ao completo, passou a ser de todos. A magreza que lhe era notória foi desaparecendo com a labuta dos crentes que  agora reverenciavam a um novo o-m-n-i-p-o-t-e-n-t-e. O miúdo viu-se em um futuro onde era ele a defender os que comprometiam a íntegra dos que um dia cansaram seus braços com o que custou sua existência. Estava sobre os seus ombros o vermelho dos seus pais, tios, e avós. O dilúvio no sudoeste não podia se repetir, aos ombros dos seus não admitiria a perda da sua hegemonia. Paz atreveu-se a sonhar; em tornar-se o defensor destes; ser polícia era só o começo, ele queria mesmo fazer valer o seu nome; afinal era Paz!

          Até a última estação chuvosa fazia sentido crer nele. Estava crescido, já era um homem, já litigava também. Catorze anos eram seus e a esperança resguardou-os a todos. Ah! Mas procedeu com petulância, o mundo não era seu. Havia mais bonés vermelhos do que se atreveria a contar. Mais verde oliva no fardamento do que nas linhas do documento do dia quatro de Abril, utopia fundamentada. A estação levava suas chuvas e o cacimbo não prometia a mesma densidade com que os habituou. O sonho do Paz espoliou-o. As mesmas fardas que desejou com intensidade deixaram-no nu, desprovido de vida, expirado. Deixou-o estendido no vermelho feito areia, em corrente que então era só sua, afogado em chuva miúda pela névoa do cacimbo. Wala não chegou a ser seu homólogo; a sua própria inspiração exterminou-o a aspiração. A mãe que o viu desfazer-se das fraldas, a mesma que o aconselhou a deixar os sonhos para os de almofada de penas, os que dormem de barriga para baixo e nada lhes enturva a noite, esta mesma mãe, hoje já não o tem. O acordo expirou. Paz foi fuzilado também.

          “Pai dele que está no céu”, começou ela. Com as mãos em céu que não estava sobre si, ao d-e-u-s que não a pertencia, continuou:  “Tata ye wala mu Diulu. Eye mwene!

                                                                                               Eme ki ngala ni inzo.

                                                                                               Eme ki ngala ni mona.

                                                                                               Ngodo fwa.”


          Paz enganou-se! Depositou a confiança no traidor, no mesmo que espargiu sete balázios no d-e-u-s do dilúvio aos vinte-e-dois-de-fevereiro-de-dois-mil-e-dois em Lucusse. Isso quando seu nome ainda era doce. O primeiro sábado foi o seu último. No final do cacimbo, ao cheiro das últimas tulipas da estação, Paz foi levado também, pelo tal que lhe queria chamar homólogo. Afinal Wala nunca deixou de ser traidor. Soubesse então que seria sua última questão, decerto a faria de forma mais alta, de forma a ensurdecê-lo mesmo. A espingarda que ele usou no último d-e-u-s opoente foi posta na cabeça do miúdo inocente. 



“Tata ye wala mu Diulu. Eye mwene!
Eme ki ngala ni inzo. Eme ki ngala ni mona.
Ngodo fwa.”
“Pai dele que está no céu. Tu mesmo!
 Não tenho casa. Não tenho filho.
 Morrerei."
Cláudia Cassoma, ou Laudy como prefere ser chamada é uma Jovem Angolana apaixonada pela arte de escrever, expressando em sua poesia suas mais intimas ideias e inquietações sobre a realidade que a rodeia. Seu primeiro encontro com a arte de escrever debuta desde os seus 9 anos e foi amadurecendo com ela até "Amores que nunca vivi".