para que a morte não nos mate

Imagem retirada do GOOGLE

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    O fim deixou de ser um acaso. Hazael viu nos olhos de Lya o que há muito negavam e decidiu que era altura.

    Lya levou as pupilas à direita e num movimento vertical dançou-as em seu desinteresse deixando claro que não seria um magro sem pose o amor da sua vida: —“Não adianta, não estou interessada.” — As primeiras palavras de Lya nunca mais deixaram as noites de Hazael; suas alvoradas insones passaram a ser preenchidas por ela, e só por ela. Investiu, portanto, em sonos mais longos e neles planeou várias formas de conquistar o coração da moça caramelizada que atiçou-lhe as emoções.

    A jovem de altura média com rosto pequeno e oval e corpo pouco desigual morava ainda com os pais quando primeiro encontrou os olhos de Hazael estacionados em sua direção. Nessa altura, estava certa de que a próxima temporada de sua vida não tardaria. Depois das provas que garantiram-lhe um lugar no quadro de honra da escola, não lhe restaram dúvidas de que facilmente conseguiria a bolsa de estudo que tanto desejava; sairia da casa dos pais e começaria a trabalhar dois anos depois do começo da sua formação acadêmica. Lya estava certa da direção da sua escada, mas pouco sabia que, dentro em pouco, seus degraus seriam manipulados.

    Ela elevou seus círculos negros e quando os baixou seus olhos já haviam fechado sinalizando indiferença ao olhar enamorado do rapaz. Este, mesmo com os óculos boiados e sem marca, recusou-se em deixá-la ir assim: — “Nem toda capa desagradável à vista é sinal de mau enredo,” — disse então, suavemente agarrado ao braço de Lya. — “O quê?” — Lya perguntou, desfazendo-se das mãos de Hazael e com antipatia franziu a testa. Ela não questionou necessariamente o significado da frase, pois as muitas leituras que fazia permitiram-lhe rapidamente descodificar aquelas linhas. O que ela não entendeu foi a coragem com que esse, ainda desconhecido, se atrevera a tocar-lhe e a dirigi-la palavras tão insensatas. Depois do “não adianta, não estou interessada” como resposta da pergunta nunca feita, Lya seguiu com seu dia.

“É verdade, não sou de pasmar, não sou, admito; mas que direito tem ela de me desprezar? O quê; são os óculos? Isso posso tirar! Sou magro? Não custa engordar. O que é então?” — Hazael apontava para o seu reflexo no pedaço de vidro em sua mão direita e produzia o seu monólogo frustrado. Ia às voltas pelo quarto; de quando em vês levava o espelho à mão oposta, descansando o braço, e logo prosseguia com a discussão unilateral: — “Há vezes que nem o prefácio adianta ler tão cedo, abra o livro e vá direito ao primeiro parágrafo, quem sabe não te surpreendes”, — continuou. Ele desperdiçou horas que outrora aplicava nos estudos em momentos de si próprio, discursou sobre o adiantado desapego de Lya e desenvolveu planos que possivelmente ajudar-lhe-iam a destrancar o coração da caramelizada que calçava trinta e oito, pouco sabia que Lya se derretia sobre as únicas palavras que lhe dissera até então.

”Como pôde ele? Tão atrevido!”

”Está tudo bem filha?” — Dona BoaVentura, ao passar pelo quarto da filha, questionou-a, crendo que o que ouviu fora dirigido à ela; mas não, ela era apenas uma pedestre perdida na via das palavras de Lya. Sentada na sua secretária, Lya levou a ponta da esferográfica à boca interrompendo os estudos e banhou-se num mar de inquietações e desejos. — “(...) Mas nunca ninguém se atreveu, nunca, sabem todos quem eu sou,” — prosseguiu; — “que rapaz!” — Embora ela estivesse certa da sua atitude, não podia negar a vontade de saber e fazer mais, talvez saber fazer mais.

    Na escola, Lya e Hazael não mais se cruzaram. Ele ocupou-se com a produção dos seus filmes, trabalhou no seu projecto final enquanto ela preparou-se para concorrer no concurso de atribuição de bolsas de estudo. Lya era moça feita pra não desapontar ninguém, estava mais próxima da perfeição do que qualquer outra. Fora suas ocupações acadêmicas, passava o resto do tempo a ler os seus livros, ademais, publicava no seu blogue que com apenas um seguidor ia para a metade do seu terceiro ano; pior, este era anônimo.

    — Comentário de Anônimo: ”Talvez a solução seja procurá-lo e expôr o que realmente sentes. Se o que aconteceu há dois anos atrás continua a te assombrar talvez seja altura de resolver a situação; aliás, tu não sabes o que ele sente.”

    Era aparente o inquieto estado de Lya. As suas linhas mais recentes no blogue ainda refletiam o momento em que com desprezo se dirigiu à Hazael. Lya falou de um sentimento que até então só sentiu por seus personagens favoritos, as arduras que lhe possuíam a cada desfolhamento agora lhe queimavam de jeito surreal. Era perturbador.

    — Resposta de Linhas de Lya: ”Mal sei onde o encontrar, depois daquele sucedido nunca mais nos vimos. Sei que estávamos na mesma escola, mas faz um ano desde que começamos a universidade, se é que ele começou; então não sei.”

    Como sempre, Lya, atenciosamente respondeu ao seu único comentarista. No blogue ela via-se sempre à vontade para desafogar. Aquele era o único lugar onde se abria sem fobia, deixava-se ficar vulnerável; se bem que, era tudo aos olhos do mundo, Lya não se preocupava pois estava claro que as visitas em seu blog podiam-se contar em uma das mãos sem se chegar ao anelar. Ela e esse visitante trocaram pareceres várias vezes no seu “Linhas de Lya”. Estavam tão próximos que o mundo não podia estar mais distante.

 

Recordarei com toda claridade pois foi marcante;
foi desinquietante, provocante, me senti desafiado.
Foste tão crua, que decidi
que te terei nua; minha.
Vou chegando;
H.  

 

    Essa já era a milésima carta que recebera. No começo Lya sentiu-se lisonjeada; mas depois, um sentimento apertado a cobriu. Não conseguia desfazer-se da ideia de que poderia ser um pervertido qualquer a lhe vigiar, pois houve cartas em que o indivíduo, o tal H, fora tão descritivo que era inacreditável.

    Lya começou a gerir a sua relação com o H com a ajuda do Anônimo, mas desconhecia que os dois possuíam a mesma identidade.

    — Comentário de Anônimo: ”Talvez seja o que precisas, uma distração, ainda que não seja alguém que lhe agrade porquê não lhe dás uma chance e aceitas o convite? Escolha um lugar movimentado, que seja a luz do dia e descontraído. O que tens a perder?”

    — Resposta de Linhas de Lya: “O meu tempo!”

    — Comentário de Anônimo: “Por favor Lya; fora as tuas aulas, passas o tempo aqui a desabafar com uma pessoa que no fundo pode também ser um devasso como o que descreves nesta publicação, entrega-te ao mundo mulher!!!”

    Seus dedos automaticamente congelaram, Lya fechou o computador e nunca mais o abriu,  distanciando-se do homem que estava há mais tempo em sua vida depois do seu pai. Por outro lado, as cartas não paravam de chegar. Notando a ausência de Lya no seu portal online, Anônimo, incorporado no H, ampliou o tempo que investia na conquista da caramelizada. As solicitações para o encontro se multiplicaram tanto que o romance que por tempo sobreviveu de letras, por fim, começou a se substanciar quando Lya finalmente escolheu um lugar movimento, a luz do dia e descontraiu em companhia do que em linhas próprias arrebatava o seu inviolado coração. Lya deixou-se levar pela forma doce e salaz que Hazael se dirigiu à ela, destapou os sentimentos aquecidos em si e fez evaporar as dúvidas que a consumiam.

    Passavam quase três anos desde a primeira e última vez que Lya depositou o seu olhar em Hazael; então, quando o mesmo encarou-a com o rosto decorado com barba fina, negra e delineada, Lya não teve tempo para fazer voltar à memória o dia em que num movimento vertical dançou as pupilas em seu desinteresse. Antes teve-as carregadas deixando à vista o sentimento apaixonado que no momento a cegou.

    A família BoaVentura era uma de prestígio, e para a filha, como qualquer outra em sua posição, ambicionava nada senão um varão à medida, e sem dúvidas Hazael não era este. Para a (in)felicidade dos BoaVentura, Lya se agarrou a esse amor e por nada considerou deixá-lo. Estavam tão apaixonados que ardia até nos olhos dos que só os apreciavam. Na faculdade que frequentavam não havia um que não tivesse ouvido já sobre o casal, era tão incomum o amor entre os dois que era inevitável questionar ou simplesmente admirar.

    Olhar para Lya, depois que se grudou à Hazael, era difícil, não só para a família mas também para o resto do mundo que a acompanhou desde cedo. Sabiam todos dos grandes planos que traçara, da certeza que carregava de que a vida era uma escada com degraus a se respeitar. E lá estava ela a alargar passos! Quando Lya primeiro decidiu viver com Hazael sem se casar foi mais chocante do que quando começou a namorá-lo; pois embora estivesse no seu plano desejar vivamente possuir um amásio que a encantasse só após a licenciatura, estavam quase todos certos de que não lhe faria bem então se alegraram quando, por fim, encontrou alguém. Ela não teve filhos antes do casamento, mas o casamento também não chegou até depois do seu diagnóstico positivo e tardio do câncer de ovário.

    Lya, a caramelizada de altura média com rosto pequeno e oval e corpo pouco desigual que calçava trinta e oito, estava perante o diagrama de sua vida e não sabia onde colocar a situação que lhe assolava, pois, como o amor de Hazael, esta também chegou sem ser planeada. Hazael estava certo de que não precisaria ver seu único amor passar por dilacerantes quimioterapias, nem tantos tratamentos experimentais pois pra sua infelicidade Lya fora diagnosticada já na beira dos seus dias. Não fosse o seu egoísmo, quiçá Dr. Justino, médico da família, pudesse fazer mais do que delimitar seus dias. Lya sabia que passaria pelo mesmo que a mãe, e embora lhe custasse acrescentar degraus à sua escada, nada lhe livrou da dura realidade. Sem que fosse possível evitar, Lya acabou vendo-se angustiada no consultório médico olhando fixamente para o rosto do mesmo doutor que preditou o fim dos dias claros da mulher mais importante da sua vida, Dona BoaVentura. Dr. Justino aconselhou-a a fazer os testes tão cedo fosse possível, mas pela fobia que lhe era característica, lya recusou-se a ter que reescrever os episódios da próxima temporada de sua vida. Mas independentemente da sua relutância; o seu volume abdominal aumentou consideravelmente, as dores vieram junto, e a dificuldade de se alimentar também não facilitou a sua condição.

    Hazael deixou de acordar ao lado de uma mulher energética. Lya nunca desfez o sorriso do seu rosto, nunca se cortejou por lhe doer aqui ou ali, estava sempre indiferente e isso o aterrorizava. — “Nem toda capa agradável à vista é sinal de bom enredo.” — O monólogo do rapaz teimoso que conquistou o coração da durona passou de frustrado à assustado, lhe pesava um cenário onde uma paz indecifrável cercara a certeza de sua caramelizada e lhe fizesse desistir. — “Mal sei onde a encontrar, depois daquele sucedido nunca mais nos vimos. Sei que estamos na mesma cama, mas já lá vão dias desde que começamos a lutar pela vida, se é que ela começou; então não sei.”

    Mais uma vez ela sorriu. Lya desfilou pelo tapete de tulipas que criara seu amor, não chorou tão claramente, evitava, pois sempre lhe custava se calar, então só sorriu mais alto. Quando levou as mãos à boca destapada seu sorriso foi notado entre os dedos. Os amigos, os colegas, os chefes, todos admiraram o momento, houve quem chorou por ela, pela felicidade. Quando os joelhos de Hazael se desfizeram do chão o anel já sobrenadava os dedos de Lya.

“Como pôde ele errar no tamanho do anel depois de tantos anos juntos?”

”Marta, há coisas mais importantes!”

    Jôana se afastou de Marta e se fez mais próxima do casal, por segundos os invejou e depois de um morno abraço voltou ao seu cubículo.

“É verdade, não sou de pasmar, não sou, eu sei; então como pôde ele me amar tanto? O quê; é a bunda? Essa deveras desaparece! Sou calma e segura de mim? Também tenho meus momentos de aversão. O que é então?” — Lya encenava seu monólogo perplexo enquanto sondava seus restos. La às voltas pelo quarto; de quando em vês pegava no bouquet de flores e se ensaiava, até que, por fim, se viu em cadeira de roda sobre o tapete de tulipas na ala central da igreja.

    Na penúltima madrugada, depois do dia do seu casamento, Hazael saiu do estado de sono quando sua jovem mulher já não o fez. — ”Não adianta, não estou interessado,” — proferiu tal desprazer derramando seu pranto sobre o corpo duro de Lya, pessoa que lhe esposou há uma alvorada atrás. Hazael não era tão audaz quanto a esposa, por tal, foram inevitáveis as gotas que saíram de si e inundaram os lábios sorridos dela.

    Com as forças que lhe restaram, Hazael fez o chá que outrora seria sua amada a fazer. A doçura não estava a gosto pois lhe faltaram gotas de limão, mas as outras que usou deixaram a casa com um cheiro de amêndoas amargas. Talvez  a impressão que atingiu-lhe o olfato lhe fizesse bem, não fosse do tóxico cianeto que com facilidade adquiriu online.

    Depois do diagnóstico da mulher e antes do casamento, Hazael passou a desperdiçar horas que outrora aplicava nos seus hobbies em momentos pretéritos. Lá pelos antigos textos do "Linhas de Lya" imergiu-se em lembranças de quando ainda era nada senão um Anônimo na vida desta que hoje já não tinha existência. Em várias ocasiões, discursou sobre o adiantado desapego de Lya e desenvolveu planos que possivelmente ajudar-lhe-iam a reanimar o coração da sua caramelizada. Durante uma das suas leituras, num retângulo na vertical do blogue um anúncio o estorvou a visão: O frasco era castanho escuro, transparente, e de baixa estrutura, pois as poucas gotas que lhe cabiam eram suficientes para desfazer qualquer pesar. O que Hazael não sabia era a rapidez com que lhe inibiria a respiração, lhe alteraria os sistemas, e livrar-lhe-ia de momentos de náuseas e vômitos acelerando o findar da sua existência.

”Como pôde ela? Tão atrevida!”  — O fim deixou de ser um acaso. Hazael viu nos olhos de Lya o que há muito negavam e decidiu que era altura. Com os dedos na asa da caneca ainda morna pelo chá que preparara, banhou-se num mar de inquietações e desejos e como a brindar à alguma coisa murmurou: — “para que a morte não nos mate”

    No período remanescente, Hazael olhou fixo nos olhos oclusos de Lya, permaneceu por instantes, até que a sua frequência cardíaca foi de baixa pra nenhuma.