Cláudia CassomaComment

Carta de uma criada

Cláudia CassomaComment

 

eu queria escrever-te outra carta amor,

uma que exibisse essa dor

         que me livrasse desse calor

uma carta que dissesse dessa falta impensada

                                             desse agora reduzido à nada

                                             dessa saudade que me abraça

 

eu queria escrever-te outra carta amor,

uma carta que revelasse o meu querer

                     que mostrasse a minha dor por te perder

                      que te convencesse que não foi meu querer

                      que falasse do ZIMBO que agora sou

                                             do mau amor que à outro dou

 

eu queria escrever-te outra carta amor,

uma sobre o nosso colóquio

carta de lembranças de ti

           dos teus olhos negros como loengo

          dos teus lábios doces como os filhos do mamoeiro

          do teu peito ampliado nas duras tardes com o cafezeiro

          (o actual SENHOR do meu útero)

          causante do cabuloso adultério

 

eu queria escrever-te outra carta amor,

que voltasse à memória os nossos tempos

                                                     nossas noites sobre as lousas dos meus velhos

entre os cantos do acastanhado rouxinol 

ardentes pelo romper do sol

e as cinzas que nos deixou o depois

 

eu queria escrever-te outra carta amor,

escrevê-la sem palavras alheias 

                    sem impressões da mulata que abrevia minhas idéias

                   sem os amassos do criado que a faz lixo

                e sem o calor do gari que nos acolita 

 

eu queria escrever-te outra carta amor,

que a não lesses sem prantear 

que te levasse além do meu falar

que entendesses as estampas entre as alíneas

que mesmo sentado perto de uma vínea

                                                                                 ouvisses a mais alta nota do meu pentagrama

uma carta que declarasse nula qualquer outra

 

eu queria escrever-te outra carta amor,

uma carta que te levasse o plangor que excarcero 

uma carta que o céu e os oceanos 

                    que o calor e as correntes 

                     que as terras e os navios 

                                                                       pudessem entender

para que se o eco desse plangor se desviasse

as fortes ondas

exoráveis pelo nosso cruciante viver

levassem entre o suor dos outros contratados 

com gotas levantadas pelo compadecido maremoto

as palavras magoadas da carta que queria escrever-te amor

 

eu queria escrever-te uma carta...

 

mas ah meu amor

a mulata se ausentou

e eu não sei compreender

por que é, por que é, meu bem

que tu não sabes escrever

e eu — Oh! Desespero! — Sou iletrada também

Foto retirada do Google

Foto retirada do Google


Inspirado no poema de António Jacinto, "Carta de um contratado". 

Publicado como parte da homenagem ao escritor organizada por mim, na minha página do facebook. [8 Dias de António Jacinto] 

#8DiasDeAntónioJacinto

#Setembro24

#Dia5

Cláudia Cassoma, ou Laudy como prefere ser chamada é uma Jovem Angolana apaixonada pela arte de escrever, expressando em sua poesia suas mais intimas ideias e inquietações sobre a realidade que a rodeia. Seu primeiro encontro com a arte de escrever debuta desde os seus 9 anos e foi amadurecendo com ela até "Amores que nunca vivi".