Cantares de Kalei - II

     Sei da Marcela desde que seu nome ainda era “Celinha”, naquele tempo eu já sabia dela. Lembro-me de lhe ver  correr pelo bairro, mas corria, corria tanto que quase ninguém a via. Mas eu sabia, conhecia seu gosto pelas bolas de trapo, não apenas para o 35 Victória, futebol com os rapazes lá da senzala também  a animava, talvez pela atenção, pois as poucas meninas que sabiam chutar a bola eram adoradas.

     - Oh Celinha, chuta a bola! cantavam os que já se viam cansados de correr atrás dela.

Foto retirada do Google

Foto retirada do Google

     Via-se nas veias que lhes desfigurava os corpos, alguma raiva, mas sorriam pois afinal os adversários levavam nos cornos.

    Marcela já estava em mim antes mesmo de tirar a poeira dos calções. Lá mesmo do meu canto já havia avistado suas ancas, aquelas pernas que pareciam mamoeiro e a bunda que aparentava seus frutos. A cintura, fina, como a goaiabeira lá de casa; os lábios carnudamente adocicados, doces como o caju. 

     Da Marcela eu já sabia, desse corpo que não foi só pelas corridas a volta do campo mas seu presente de nascimento.  Então conheço Celinha desde os tempos dos calções curtos e bolas de trapo.

Cláudia CassomaComment