Arbítrio Obstruído

    Seu brado ressonante pelo meu primeiro vagido foi simultaneamente ouvido com o disparo incipiente de quinze-de-março de dois-mil-e-onze. Eu sabia que as fortes correntes nas cascatas da minha mãe não plagiavam a mesma alegria que sentiu duzentos-e-setenta dias atrás. O azul espumante na mistura da pasta de dente com o líquido excrementício segregado por seus rins foi razão suficiente para um sorriso dilatado em tal grau de terror. Passou as mãos no ventre aplainado e mesmo reconhecendo a insolência dos testes caseiros creu com todos os medos que eu vinha. Nunca o simples acto de lavar os dentes deixou-lhe tão feliz, mas quando descobriu que me esperava o branco do creme dental passou a ser o lembrete da minha patente importuna chegada. Inevitavelmente, naquele dia do terceiro mês do ano, nem o clima ameno da estação fria deixou-lhe aproveitar o tempo como antes fazia. Ela tinha consciência de que meus berros não eram por finalmente estar nos seus braços abrasa dores. O meu medo era o dela.

    Naquele período favorável para talvez um olhar alongado e um sorriso alargado, minha mãe perdeu-se em memórias do primeiro dia: Viu-se miúda em roupas de cores fuscas patrulhando os cantos perto das paredes que eram assinadas por amigos artísticamente mais definidos. Levou-se ao tempo em que os muros da escola se fizeram prisão dos seus ecos. Com corpos rijos e dispostos, ela e os amigos, puseram-se em pinturas revolucionárias quando ao distrair-se três dos cinco foram postos por terra. Tudo o que sei sobre o dia é o que vejo reflectido nas suas pupilas. Embora menos oneroso, continua inescapavelmente nas correntes das suas lágrimas; sinto sua dor ao pousarem por meu corpo enquanto me banha, ao me deparar com a foto do quarto que no dia ficou paraplégico, até ao respirar sinto o que sente. Pesa-me a culpa lhe pesa. Ser poupada foi sua maior punição.

    Sobre o sol aquece dor do meu quinze-de-março, seus gemidos em memória do meu pai trouxeram-me em aguarela de só uma cor. Aqui nasci! No entroncamento entre a ousadia e a aquiescência. Na razão do vermelho que hoje me banha. No pânico que já não me mora. Na esperança que já não se fala. Na irrelevante vida. Hoje a prisão dos ecos da minha mãe sou eu. Sou o que quis em tempo que não deu. Hoje não sei se culpo os trinta anos do progenitor ou os dez do seu rebento, não sei. Talvez a teimosia da minha mãe seja culpada por meu desgrenhamento. O talento do meu pai foi-lhe traiçoeiro. Sua rebeldia é o rasgo nos meus calções. É a mancha berrante nas minhas camisas. São meus lábios rasgados e trancados. É a minha indiferença pela vida. Assim cresci! Descalço entre as queimadas das armas dos rebeldes; entre as pegadas dos prepotentes. Banhado no sangue dos meus, manchado por este dos seus. As velas das minhas lacrimosas primaveras foram sempre ateadas pela próxima bala, extinguidas pelo vento dos corpos oscilantes dos de verde-oliva, os de medo-nenhum, mortos em vida-sem-ânsia.

    O azul espumante na mistura da pasta de dente com o líquido excrementício segregado pelos rins da minha mãe é razão suficiente para um clamor interno perante tal grau de terror. Admito que as fortes correntes nas minhas cascatas não plagiam a mesma alegria que sentiu cinco anos atrás. Nunca o simples acto de lavar os dentes deixou-me tão infeliz, mas quando descobri que assim me achou o branco do creme dental passou a ser o lembrete da minha patente funesta ida. Ela sabe que meu silêncio é pela sua falta de altruísmo. Ser poupado foi minha maior punição.

    Confesso que, de tempo em tempo,  no silêncio das espingardas, espavorido pelo ignoto, levo-me por ledices utópicas e me perco no falso clarão do fundo do túnel: Quiçá os cinco, ainda seriam cinco e não uma e um paraplégico. Teríamos escolas ainda que despóticas. Nossa casa seria nossa e não dos esquilos empoeirados pelo derrube dos arranha-céus. Em momentos como estes o porvir é tão evidente quanto o florir do hibisco-da-síria. Mas ao reflexo do próximo disparo admito minha demência e inexpressivo reverencio subordinação por Tiago 4:14 enquanto ambiguamente dispo-me por Isaias 64:4; porque desde quinze-de-março que assim sou e igual ao meu pai testifico que vou.