Nada Falarei

Imagem retirada do Google

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sobre os que beiram a morte por minha vida

abstêm-se de manducar pra meu engordar 

sorriem os corpos franzinos enquanto lhes privam da liberdade

levam nos cabelos longos a porvir resignação 

nos côncavos olhos a sustida sufocação 

sobre os que com ossos próprios fazem escudo 

seguem destemidos com punhais que não passam de cantos 

vão pelos mudos 

vão em tons graves aos que trazem gládios 

sobre esses seres obstinados 

seres de teimoso anelar 

nada falarei 

sobre as pernas em corridas de desnortear 

tanto que lhes desposam de andar

                lhes deixam secar em correntes que nem assim lhes calam 

vão em óbitos que lhes perpetuam 

seres desiguais 

sobre os assentes nas suas verdades

         os que não abanam as bocas

antes vão a mastigá-las 

levam-nas pra lá do seu conforto 

sobre os que carregam cartazes 

amestram rapazes 

nada falarei 

sobre esses corpos eretos feitos ambulantes 

esses mesmo 

os que se atrevem 

ainda que na crença do teocentrismo 

têm ritmo 

vão com um certo dinamismo 

se fazem centro 

sobre o pão dormido que consomem 

o chão frio em que se deitam 

fingirei nada saber 

direi não ver a forma como lhes fazem 

os paus que lhes dão ao escurecer

os ferros abochornados que espetam-lhes à garganta 

darei ares de não conhecer 

nada falarei 

sobre os homens grávidos de mim 

deixarei assim 

sobre as manchas que não são passado 

sobre os berros que deixam em si 

os braços que lhes abraçam as pernas 

enquanto dão as costas ao maus 

sobre as noites que não chegaram a conhecer 

nada falarei 

sobre esses corpos em linhas de carnaval 

que dançam verdades que são eles mesmos a cantar 

sobre o que perdem ao me deixar ganhar 

de mim nada ouvirás 

            nada terás 

     pois nada falarei

Cláudia CassomaComment