Mão de obra alheia

Senti-as passar por meu pescoço enquanto soprava palavras que já não conseguia ouvir. Atreveu-se a ensopar meus lóbulos, linguando-os como se fossem os gelados de múkua da Dona Júlia, linguando-os com paixão. Foi abraçado a pressa antecipando o chegar do que me tinha. Foi rápido. Foi bruto. Foi rijo. Foi tocando em áreas nunca antes cultivadas, foi por vias que nem mesmo eu sabia, teve as mãos em partes que nem mais me atrevo a encontrar. Hoje o pousar das celhas me incita, me invadem os episódios do capítulo que até hoje não encontrou o ponto final. O claro expor de minhas pupilas quase me denuncia. Estão aqui mesmo, nas bolas negras do meu olhar, pedaços de uma noite inesquecível, restos de acção alheia. As largas mãos marinadas em pelos pontiagudos zungando prazer por partes de mim, dedos em entradas e saídas desenfreadas, os dentes na prática do bruxismo, perfeita definição de atrito, meu corpo nada estático em modo também pouco rabugento. Me deixo ser ensalivada, assisto o passear da sua língua, indo de norte à sul de jeito invasivo, subindo e descendo em ritmo demorado. Ao me abraçar o homem que me tem, vou pelo resto de ti grudado em mim. Revivo a noite em que fui tua e foste meu, noite em que o beijo deixou de ser rotina, deixou de ser seco, deixou de ser vago. Beijaste-me com lábios dispostos, beijaste-me com pegadas, beijaste-me de forma apertada, beijaste-me nas pontas, beijaste-me nas brechas, beijaste-me completa. Ponho meu olhar sobre o que me tem e vejo teu nada robusto corpo, pouco magro, teu rosto reluzente, tuas mãos, estas mãos, estas mesmo que me levaram ao berro ao entrarem e ao suspiro ao saírem, estas mãos, mãos que me fizeram viajar. Penso no calor em que nos banhamos, seus braços como meu apoio enquanto com a cabeça pra baixo minhas pernas cercavam-te pela cintura, o levar e trazer dos teus dedos induziam as desentoadas canções, me levavam ao mais alto grau de satisfação. Vejo no sofá hoje nitidamente almofadado a violência em que se submeteram nossos corpos, no chão seco pequenos pântanos pelo gelo que em mim se derreteu, nas paredes impressões digitais formadas aquando da prática do kama sutra. Vou pela facilidade com que me fazias sentir e me sustento na realidade em que me és alheio com o perpetuar de tua mão em mim. 

Cláudia CassomaComment