Marcelina - Episódio 1

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          Marcelina apertou o respirar, expirou as gotas que se atreveram a espreitar, se recolheu e pôs-se a andar. Não era bem o que esperava, dado que nos últimos tempos se vinha a envolver em actividades espirituais como forma de encontrar "luz". E até que a encontrou,pena que não foi dourada, mas branca e super forte, quase ofuscando a face do coitado.

         Quando chegou a casa não pôde se pôr em choros, pois os pequenos iriam provavelmente perguntar, principalmente Rafael, dado ao ser característico, a curiosidade, e a idade. Ao entrar na sala de estar, onde por coincidência estavam os meninos, Lina, como era tratada pelos seus, recebeu seu habitual abraço e os respondeu com os beijos de sempre, nada sonoros. Em seguida, com o coração cortejado, foi para o seu canto e fechou a porta. Pôs-se de joelhos e de mãos juntas se deu a olhar para placa que n'altura lhe foi o céu onde supostamente lhe viria alguma ajuda. Pediu pistas, clamou outra chance, se mostrou disposta a refazer. Depois daquele então, o único e mais alto som que se ouviu, foi o silêncio naqueles quatro cantos, fora a musiquinha que vinha da cozinha onde Maria preparava mais uma das suas deliciosas refeições para a Família Veado.

           Marcelina recolheu as roupas do marido e colocou-as em quadrados numa mala com os outros pertences, com o intuito de a mandar pra "Marte" eliminando qualquer lembrança de Filipe. Surpreendeu-se quando dentre as coisas velhas e empoeiradas dele caiu um papel meio amassado e rasgado como se alguém se viu culpado após escrevê-lo e tencionou jogá-lo ao lixo. Pensou metade de uma vez e o abriu passando as mãos por suas linhas como se o estive a engomar.

Leninha, minha paixão;

se estiveres a ler isto talvez já sabes de tudo. Sinto muito!

Só te quero dizer, "não te entregues a nenhuma procura estúpida de cura, pois eu aceitei e vou feliz, talvez!

Já deves também saber que o corte de cabelo não foi exactamente um corte, mas queda. Nossas noites sem fazer amor por me dizer estar cansado não se deram por muito trabalhar, mas pelo passar do tempo.

Não te culpes, como fazes sempre, nem espero que me perdoes agora, mas que te esforces a entender e a aceitar as minhas acções. 

                                                                                                                                                             Do teu quase amor perfeito, 

                                                                                                                                                                                               Filipe.

 

          Depois de delongar um fixo olhar sobre aquele papel, depois de uma tentativa frustrada de encontrar a coisa certa a fazer perante a situação, Lina assustou-se com o bater da porta. Era Maria dizendo que Dr. LessFé estava ao telefone. Claro, como qualquer outra pessoa, Lina começou a pensar no pior. Pegou o telefone, instalou-o no ouvido e se deu a escutar a aguda voz que se deu a soletrar a situação. Antes mesmo que terminasse suas falsas condolências. Lina soltou o instrumento que segurava, deixando-o voar pelos ares preso na corda laranja.

         Marcelina quase que se afogou em seu próprio dilúvio. O pior não foi não saber o que fazer, mas como fazer, como espetar tão afiada faca em seus próprios filhos e perder  a confiança deles por lhe terem como culpada. Talvez mostrar aquela carta ajudasse, mas com certeza estaria muito além do que poderiam entender.

            Marcelina então se preparou e foi.    

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Olá queridos leitores e seguidores deste blog que já virou lugar de descanso e reflexão pra muitos. Primeiro me desculpo pela eternidade sem textos novos, tenho meus motivos. Segundo, apresento-vos a primeira parte da estória de Marcelina que venho escrevendo há já algum tempo (Ainda não o titulei por isso o chamo pelo nome do carácter principal. Espero o vosso feedback! (Talvez poste outros episódios)

Queria também agradecer a Lwsinha que sempre oferece uma atenção especial ao meu pobre canto, se não fosse por ela, não estaria a postar tão cedo. Espero que outros assim como ela continuem por estas bandas, e sempre farei o possível de estar presente.  

Atenciosamente;

Cláudia Cassoma.