Acabou

          Com as malas nas mãos me vi saindo daquele lugar que me albergou por quase toda vida. 

         Antes que pisasse na terra exterior da casa, me dei a pousá-las e me pus a observar. As paredes transpiravam mares, como se me tentassem transmitir algo, mas que por mal e/ou diferente se expressarem, me vi incapaz de entendê-las. Foi quando olhei pra cima esperando melhor explicação da placa de nossa casa, mas nada me deu senão teias de aranha no rosto. 

          Fixei-me em cada objecto naquela sala, e cada um me contava uma história recheada de você. Como o jarro no centro, com as flores já mortas. Lembro-me exactamente de quando me deu; 14 de Fevereiro de 1998, nosso primeiro aniversário de casamento. As flores eram tulipas amarelas, só você sabia o que quanto eu amava tulipas e mais ainda as amarelas. Eras tão supersticioso que as trocavas todas as quartas. Ah! Odiava tanto esse teu lado, que dava tudo pra o sentir só mais uma vez e dizer o quanto o amo na verdade.

          Por exemplo o sofá, parece nada assim, fixo e incapaz, dependente, mas ele sabe tanto sobre nós que não ias acreditar. Nossas noites nele, nosso cheiro, amassos e tudo mais, ah! se ele falasse.

          Sei lá! Olho pra cada canto deste uma vez lar, e consigo ver você, as crianças que não tivemos, os planos que não chegamos a concretizar; e acho que é isso que mais me dói, cada lembrança.

          Por tal admito pra mim mesma; acabou!

       Seguro de volta as malas como se fosse sair correndo. Mas deparo-me com o portrait  de nós, e logo me chovem lágrimas. Como relâmpago me vêm os últimos episódios de você; teu rosto magro e acabado, corpo sobre fios e máquinas naquela cama de hospital, tão longe de você, tão distante de mim. Lembrei-me de quando segurei a tua mão e lá já não estavas.  As mesmas gotas que me caíram n'altura, derramei no mesmo instante. Foi quando me dei conta que afinal tinha de ir. Expirei-as, lancei um profundo suspiro e fui. 

          Posta no taxi, olhei pro único pedaço de ti que me permiti ter (o anel de casamento), reli a frase por que me dei a jurar um dia, e ao virar do motorista com olhar curioso e tanto quanto abatido, querendo extrair de mim o porquê da triste peça, rematei-lhe num sorriso ofuscado e nada convincente;

          ACABOU!