Devaneio

Leia ao som dos "The Calling" - Anything

Hoje levantei convicta, decidi dar vida aos meros sonhos, plantei em mim todo um resto de ti e deixei crescer.

Comecei por preparar o cabelo, desfrisei a minha carapinha do jeito que você gostava, soltei-o para que sentisses o perfume por ele exalado. Saí as pressas do salão e fui a garrafeira, comprei "Hermitage La Chapelle" , depois encomendei "Choucroute Garnie", queria comemorar.

Enquanto a comida não chegava, me pus num longo banho de pétalas de rosas vermelhas e perfumadas, sentia-se o cheiro do meu corpo molhado e odorífico lá no princípio da avenida.

...Molhada e perfumada, cabelo arranjado, hora de colocar o vestido que me levou horas e horas a escolher. Vermelho e longo, com o zíper às proximidades coxeiras, que combinou com aqueles sapatos que me foram os últimos presentes de ti. Depois, eram só mais umas gotas de "Yves Saint Laurent  - Cinema" e prontos, lá estava eu, maravilhosamente linda , completamente pra você.

Sentada naquele sofá também comprado pra ocasião, na sala decorada e aromatizada com velas coloridas, ouvindo "The Calling" na esperança de que aquela noite seria diferente das demais por mim vividas, me enchi de certeza de que virias, que finalmente me amarias, eu sabia que ia acontecer, "ou estava 99% completa de certeza".

As horas começaram então a ser cronometradas, não aguentava mais tanta ansiedade. O telefone não tocava, nem a campainha ao teu som cantava, nada, nada acontecia, senão o acelerar de minha agonia.

                                                                         (...)

Já estava a comida fria, o cheiro das velas já não se sentia pois gastas se encontravam, meu corpo já se via inundado de suor, o vestido vermelho que me desenhava o corpo esbelto, na altura já me era sufoco. Num mergulho lacrimoso me lancei, mas não deixei de aspirá-las...tentei te ver lá pela janela, e no buraquinho da porta, mas nem sinal de ti...mas uma vez imergi em enganos, nadei num mar onde apenas minha alma sofria.

Enquanto me via parada em tuas paragens, caí num sono profundo, onde ao nascer do sol, meu sonho se viu enterrado num passado onde afinal você nunca veio.          "Devaneio"