Fragmentado

          Desligo as luzes do quarto que outrora fora nosso, quando a noite me chama pra ela. Escondo-me enlagrimado entre os lençóis usados um dia por nós; navego no cheiro por ti lá ondulado. Ao mesmo tempo que temo orar, pelo medo que me desapareçam os rastos de ti, temo não fazê-lo e me encher de fantasias.

          É só fechar os olhos que logo me começa a maratona de nossos velhos episódios; 

          - pára, pára, pára ; é assim por alguns momentos antes de encontrar um canto no guarda-roupa pra me esconder do meu eu pensador. Uma vez que o mundo já me definiu como corajoso, forte e abstido de lágrimas, não almejo o decepcionar mostrando meu verdadeiro eu, com fracassos, choros e entregue ao amor. 

          A noite passa e tudo não passa de momentos escuramente fragmentados. Rejeito convites de amigos, principalmente dos que nos eram comuns , e me ponho entre fotos de nós, viajo nos lugares por nós um dia frequentados, na esperança de alimentar minha mente e livrá-la do delírio. Como as mesmas comidas, releio mensagens e volto as paragens.

          Fragmentado. Despedaçado. Mal ou nada amado e de certa forma abandonado, homem ou não, me derramo, e quando  não mais me suportar sem medo me vou mostrar, na esperança que meu negror afecte teus sentidos e faça de qualquer modo reverter o quadro e restituí-lo dos restos.