O amotinar da Tulipa

                    Foi-lhe narrado desde o seu período pueril que era errado ser a primeira a olhar. E ainda que lhe defrontassem olhos forasteiros, não era de boa moça fixar os seus também. Foi instruída a aproximar as pálpebras abaixo das sobrancelhas perto destas acima dos cílios. Tulipa sabia que, como uma rosa, tal precisava ser feito de forma morosa, sempre com um simples e resumido sorriso. Aprendeu desde cedo a nunca deixar refletido em suas pupilas semblante de moço que fosse. Fazer sair os alvos dentes e pousá-los apertados nos lábios inferiores era lascívia, coisa de que se devia afastar a todo custo. Foi feito por sua avó, sua mãe idem, logo esperava-se que Tulipa também se calasse ao ouvir uma voz mais grave que a dela. Faria o certo e levaria a mão direita sobre a esquerda e com os braços em ângulos de cento e trinta e cinco graus na vertical cobriria o que na verdade nunca poderia estar delineado. Não era de mulher digna de respeito fazer conhecer suas curvas, então Tulipa tinha no guarda-roupa as peças mais longas e largas alguma vez alinhavadas e quase todas  sem cor. Na maior parte das vezes se mantinha sentada e aproveitava o entreabrir dos olhos dos rostos pesados para se levantar sem propositadamente desviar o mirar varonil. Estava ciente de que lhe eram naturais as carnudas cordilheiras, mas foi-lhe incutida a importância da preservação do respeito e tal não era alcançado caso seus atributos fossem admirados antes dos seus miolos, isto segundo as primeiras que, consequentemente, ouviram dos primeiros. Tulipa precisava conhecer o exacto lugar dos talheres, a posição correcta das taças, e o tamanho da iguaria que lhe era permitido mordiscar. Além da ausência de enfeites nos pulsos e nas mãos; essas últimas, não se poderiam engordurar, portanto, usar os dedos para desfrutar de grelhados, decerto, não era coisa de menina que ansiava ser mulher. E como em épocas passadas, nessa, Tulipa também precisava ambicionar tal mais do que qualquer outra coisa, então comia com lábios juntos e gengivas escondidas. Era de seu conhecimento que a dada altura depois dos vinte e antes dos trinta, lhe seria cobrado pelo menos um rebento. Tulipa sabia. Então, quando com a bunda a oscilar em peça de roupa justa entrou na sala de reuniões com olhos fixos aos outros, ninguém quis acreditar. Mas era mesmo ela; com corpo marcado, curvas delineadas, saliências perceptíveis, era ela. Tulipa encarou os altos e robustos com convicção que não estava apenas nos olhos, o corpo dela estava também obstinado. O desconforto era de quem escolhia olhar à sul ao invés de norte, ela sabia o que levou-lhe à aquele lugar e não pretendia perder tempo facilitando o que fosse para portadores de carne fraca. Tulipa exibiu a figura que abeirava os trinta e sem breves planos de modificá-la fez cair os queixos dos que pela primeira vez constatavam uma mulher que pra tal não precisou ser senhora. Com postura firme, olhar centrado, braços em movimentos de lecionar, ela perfumou a sala com o único cheiro que plagiava o seu nome e contestou o correcto sem dizer uma palavra a esse respeito. Tulipa avolumou os grossos lábios que definiam seu rosto oval com um batom vermelho-cereja. Nos olhos, as pestanas foram esticadas com rímel que as deixou mais pretas e atraentes. À frente deles, em linha vertical, o corpo formoso da mesma jovem que se deixou ser avaliada pelas poucas gorduras que trazia com o manequim, desta vez, resguardado em traje de mais de duas peças arejadoras. Na altura, Tulipa não se igualou ao protótipo, e ela sabia. Ainda assim, com curvas mesmo, com o cabelo que crescia espesso e em altas pontas desafiou-se a perder o litígio fabricando uma verdade que lhe fazia sentir-se vencedora. Marchou em fila, sorriu, discursou, e resolveu continuar com a sua vida. Não houve quem acreditasse, mas era mesmo ela. Tulipa. A instruída a descolorir-se para que seu clarão não fosse tido como razão do desnortear do sexo oposto. Tulipa amotinou. Expôs seus peritos miolos aos olhos censorinos ao mesmo tempo que tornou evidente a sua esguia figura.