A flor em mim

me choveu há muito

antes dos berros desentoados da minha mãe 

antes mesmo da ausência dos seus cantos 

estava ainda em seus sacos quando me foram lançadas as sementes 

meu velho não me tinha ainda em seus braços 

meu ser já havia sido regado

as raízes já se espalhavam em mim 

trovava nos gritos ainda desafinados lá dos mundos de que vinha

das vias dos finos caules, histórias que preparava pra cantar

nas folhas, linhas tortas de verdades eretas 

se são verdes, se são negras

só aos alheios inquieta

o que hoje exalo 

é pela chuva que há muito me banhou 

chameja há muito meu pistilo

repleto sempre esteve meu tubo polínico

há muito me encharcam as águas que hoje encontram vossos rios 

não foi por jamais faltar sol

houve sempre quem apontou o farol 

não foi em vão meu desabrochar 

houve um amanho 

uma primeira gota responsável pel(a) flor em mim

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Do título sugerido pelo escritor angolano, Kardo Bestilo, pessoa que grandiosamente admiro, "A flor em mim"; o conteúdo que ressuma verdades exclusivas. Espero francamente que lhe agrade decifrar.