Mentiras Malgastas

 Fonte: Google

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          - Amor, chegarei tarde em casa hoje. Há muito por fazer no escritório até a apresentação do próximo  projecto. 

Estava eu mais uma vez dando vida ao falso em mim, não sabendo que se aproximava a data de expiração das minhas chamadas telefónicas. 

 

          - Meu anjo, acabei por descansar meu corpo no sofá que tenho perto da janela da minha sala. Lembras-te, sim? Faz tempo que não passas por lá. Pensei em vir as 3 da manhã mesmo, quando terminei o trabalho, mas me  recusei a lhe perturbar a noite. 

Sorriso foi o único armamento que possuía, então fiz o uso do mesmo, depois do beijo rejeitado. 

          - Mas no sábado?!  Ela perguntou num tom baixo, já inchada, a inquietação era evidente. 

 

          - Me diz que não vais começar por favor, sabes melhor do que isso. Estou super cansado e não preciso das tuas lamentações a esta hora. 

Parece covardia, mas o papel de esposo cansado e maltratado foi o único que podia representar no momento. 

 

           Sandra sempre foi curta e honesta e naquele momento não foi diferente, lançou-me o "vais ver" olhar e se foi. Sempre procurei saber o que fazia exactamente trancada num dos quartos da desmedida moradia que possuíamos, era sempre depois das nossas discussões. Ficava por lá por horas, no princípio sei que chorava, mas depois só silêncio mesmo, nem já soluços. 

 

           - Vais te trancar aí o dia todo outra vez, não vais?  

Eu sabia que sim, era previsível. Mas me dei a pensar que algum teatro me punha em vantagem. Mas não importou quantas vezes me pus a gritar, a bater na porta, nada, nada mais silêncio, tal como nas outras vezes. 

          Cinco horas depois Sandra arrastou finalmente aquelas curvas que a definiam fora daquele lugar e para o banho. Meia hora depois, o sempre bem feito sexo, com alterações que eram de matar. Confesso que não senti falta do amor, sexo continha letras suficientes pra significar a mesma coisa. Nunca percebi; era como que se as nossas discussões a cansavam e aquele tempo a sós era tudo que precisava pra voltar a funcionar. 

 

          Ela foi sempre a culpada pelos menos em minha vida e isso ela sabia mesmo antes de mim. Minhas noites de amor no escritório com a Lola, a secretária, foram nada mais antidepressantes; os gritos por volta da casa eram pra mim como o eco do filho que ela nunca me chegou a dar a parte do tudo que faltava; e pra mim ninguém se fez mais culpado do que ela mesmo, a mulher que simplesmente não podia. - Que injustiça! Penso hoje.

          Soubesse então que era mais do que meu desejar, juro que lhe iria abraçar quando vazia se sentiu, quando também queria; lhe faria acalmar aquando dos pesadelos; enxugaria seus olhos ao invés de mais ensopá-los. Soubesse eu ser melhor, o seria, juro que sim.

 

          - Não me pergunta porquê nem tente mudar minha mente, garanto-te que não irás conseguir pois tive tempo suficiente pra me decidir. Eu vou, e vou só. 

 

Nunca tivera falado tanto numa só frase, 

seu olhar esteve nunca tão fixo e expressivo,

era sério.

Não tive tempo de agarrar em seus braços e puxá-los pra trás, 

o vento já o tivera levado. 

Me sentei, sim, era a única coisa que me restou fazer. 

Mas me sentei esperançoso, confuso sim, mas esperançoso, decidido a dedicar as restantes batidas do meu coração à sua volta. Recusei a viver desarranjado, eu queria entender, tinha perguntas sim, e seriam por ela respondidas ainda que em seu silêncio.

          - Simplesmente não se fecha a porta sem nunca olhar pra trás. Cantava o meu coração em desassossego.

 

(...) Continua



Cláudia CassomaComentário