Marcelina - Episódio 2

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Já eram menos cinco minutos para as dezoito quando Marcelina saiu de casa. A tarde se recolhia e dava lugar a noite, o vento vindo com as ondas do mar por onde andava não era exactamente "One Million" mas o cheiro bom que trazia abafava toda praia; segundo Lina.

Aquele passeio foi apenas pra descontrair, pra desabafar, pra contar pra alguém todo seu aperto sem que fosse a outro dito. O que ela não sabia é que confissões marítimas não mais são íntimas desde que as ondas se deram a dissolver no lado mais distante da beira.

         — Eu não sei como fazer isso. Não sei como aceitar que nossa última troca de palavras foi uma grande discussão que lhe roubou o chão. Não sei como não dei por isso, como não dei pelos sinais, eu não sei. Sinceramente não! Como me dei a pensar em formas de me livras de ti quando na verdade te ias de todos, não aceito que nossos filhos sejam órfãos, não aceito me ter como viúva. Não, não desta forma. Não depois de tanto orar, não antes de pelo menos tentar, não aceito (Nãooooo...)  

Não sei se foi isso, mas depois daquele grito a chuva veio não sei de onde, infelizmente a água que escorria em si não levava seus problemas a escorrer em direcção do mar, apenas a deixava mais vulnerável. Com o estado crítico da atmosfera e não só, Marcelina precisava ir pra casa e arranjar palavras pra preencher aquele conto.

Os miúdos estavam na sala de jantar quando a casa chegou. Deu-lhe jeito pra subir sem ser vista e trocar a roupa encharcada que trazia. Notou que o telefone ainda estava fora do gancho, olhou vezes sem fixar e finalmente agarrou-o e o colocou no devido lugar. Marcou o número do hospital e pediu que falasse com o doutor que tratou do seu marido. 

- O que preciso fazer?

Normalmente famílias iam até ao hospital, faziam suas cenas e levavam os corpos com eles.  Nunca o fizeram tal pergunta e ele nunca precisou ver e/ou ouvir eles de novo e se culpar pelo sucedido. Aquela pergunta o deixou sem melodia, roubou um curo silêncio, interrompido pelo cantar sem harmonia do Dr. LessFé;   - Você precisa continuar!

Aquela "conversa" foi como solução, como se tudo que precisava ouvir acabasse de ser pronunciado. Foi se sentar na biblioteca considerando o facto de que os meninos lá iriam, como era habitual depois do jantar. Evitou manter a lagoa que a escorria desde o minuto que tudo aquilo começou, falsificou um sorriso e aplicou nos lábios pra não assustar as crianças-

- Meus amores, eu sei que vocês já ouviram falar do céu. Aquele lugar lindo e incomparável onde só pessoas especiais vão depois de cansados e preparados pra uma nova vida, e quando lá estão descobrem o quão felizes são e nunca mais desejam voltar. Mas claro, olham sempre pelos seus que aqui ficaram...

Antes mesmo que prosseguisse, foi interpelada pelas lágrimas no rosto de Rafael. Não queria ser mais ridícula do que pensou que esta a ser nem se tornar insensível perguntando-o a razão daquela cena. Soltou então um forte e cansado olhar, dos grandes e redondos olhos que carregava, puxando e  deixando sair todas as lágrimas que se deu a impedir. Abraçou-os a todos, ou pelo menos tentou, pois Rafa se recusou a ser álibi de quem o tirou o mais precioso tesouro. Deixando sua mão com os olhos encharcados e enterrados ao chão e seus irmãos quase que paraplégicos, Rafael se deu a partir, ou pelo menos tentar, tudo quando o travessou a vista.