Eu vi

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eu vi nos olhos dos miúdos

dores que nao tinham palavras

vi a ausente bola de trapos

o chão duro que lhes roubou a semalha

vi as escondidas que tiveram que jogar

em quintais sem luzes pra apagar

sem pessoas pra apontar

e sem bidom pra bicar

eu vi

Ah se vi

no suor daqueles homens

no gastar de suas carnas

desespero

eu vi um afiado suspiro

vi até medo

nas calças rotas que traziam

vi as vidas que tiravam

eu vi sangue

 

vi muitos questionaram a alegria

vi quem disse que nao ria

eu vi o choro

vi meu povo em lamento

vi naquele chão

o que pra’queles homens foi pão

vi na bacia da minha avó

vi nada mais pó

eu vi

claro que vi

o olhar virado ao fim

o pensar ficar assim

vi nas mãos carregadas

balas sem esperança

nas mentes pesadas

o desejo sem força

vi em cada tiro

nada que a guerra pudesse mudar

 

vi nos pés descalços que traziam

dores que ja nao sentiam

eu vi

calos que ja nao viam

 

eu vi tudo

vi tambem o tempo mudar

o povo corajoso a levantar

vi como foram lutar

como se entregaram

a vontade que levaram

eu vi

vi os olhos a abrirem

vi os corpos de pé

e mesmo a tremer

vi a malta a querer

vi vontade de lutar

vi todos atrás de uma boa história pra contar

eu vi

vi sim

em 75, eu vi o fim